André François
Fotógrafo documental e idealizador do projeto
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Maranhão
Somos o que vemos, teoria confirmada

Trouxe comigo para o Maranhão uma mente confusa, passei um mês muito intenso em São Paulo. Muitas coisas para resolver antes de continuar a viagem. Quando minha mente escorrega desta forma, meu corpo reclama. Neste caso, uma bela gripe me assolou e minha coluna endureceu... Faz cinco dias que funciono com remédios que me mantêm no automático. Por enquanto em São Luís do Maranhão nada me agradou, uma cidade pouco inspiradora, pessoas antipáticas, difícil conseguir uma informação na rua.

Maranhão de fato!

Após sete dias, confirmei minha teoria: a cidade é maravilhosa e exótica, as pessoas são atenciosas, na verdade, eu é que não estava nem um pouco simpático.

A segunda pessoa sempre é mais fácil: “Oi! Fui indicado por...”

O trabalho mais difícil ao chegar a um lugar é “abrir” esse local, para, aí sim, começar a trabalhar. “Abrir” o local significa fazer um retrato do local, conhecer o máximo de pessoas estratégicas para a realização do documentário. Contatos como diretores de hospitais, médicos especiais, assistentes sociais, algumas pessoas da área de saúde no governo... Se possível, chegar até o Secretario de Saúde. E tudo isto no menor tempo possível, pois cada dia em campo custa muito. Assim, com estas portas abertas, consigo livre acesso e o apoio necessário para me concentrar, ou melhor, como aprendi a dizer com a Mari, coordenadora de campo da IMM, “me jogar” nas histórias e deixar rolar o que tiver que rolar. Este trabalho é árduo, tão difícil quanto fazer uma boa foto. Aqui no Maranhão, em uma semana cheguei a fazer mais de 18 reuniões com pessoas novas indicadas por alguém, construindo assim uma teia, uma rede de relacionamentos fundamental para fotografar.

Maria vai longe para pôr seu sangue na lavadeira

Apelidei a máquina de hemodiálise de lavadeira. Gosto de chegar nos lugares e inventar nomes, primeiro pela minha dificuldade de decorar termos ligados à medicina, sempre muito complicados. Com o tempo, também percebi que as pessoas se divertem com os nomes que arrumo, acho que isto torna as coisas mais leves.
Maria, jovem e linda, não possui o tratamento de hemodiálise em sua cidade – Barreirinha, interior do Maranhão. Teve que abandonar sua filha para, sozinha, morar na capital, São Luís. Duas vezes por semana fica “plugada” na lavadeira por cinco horas lavando seu sangue, na verdade, filtrando o sangue. Este trabalho normalmente é realizado pelos rins, mas os rins dela deixaram de funcionar há algum tempo, e um transplante aqui no Maranhão... Só Deus sabe! Após alguns meses, Maria conheceu na própria clinica onde faz seu tratamento outro paciente que mora em Barreirinha. Conversando, soube que havia um transporte da própria Secretaria de Saúde que fazia o translado de pacientes renais. Rapidinho, ela voltou à sua cidade. Inicialmente muitos pacientes de Barreirinha eram transportados mal alojados no baú de uma ambulância sem janelas. Agora o transporte melhorou, eles são transportados em um carro da secretaria.

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