André François
Fotógrafo documental e idealizador do projeto
Últimas Anotações
Goiânia, caminho para o Norte - Campo de Refugiados


Assisti ao êxodo de pacientes vindos de todo norte: Amazonas, Pará, Tocantins e principalmente Acre, formando em Goiânia pequenos campos de refugiados doentes, em busca do acesso a saúde. O estado do Acre envia semanalmente um ônibus cheio destes refugiados, que suportam dois dias de viagem. Alguns não agüentam a viagem. Eles são distribuídos em casas de apoio e pequenas pensões já planejada. Hoje, o cenário está melhor, o ônibus que vem do Acre é novíssimo. Mas, o que é pior? Ficar e morrer sem acesso ao tratamento?

Ou se aventurar em terra estrangeira e tentar a sorte de uma possível cura? Agora comecei a entender o que é o TFD - Tratamento Fora de Domicilio, feito pelo Sistema Único de Saúde.
Dona Antonia - uma mulher guerreira

Conheci Dra. Patrícia, uma médica muito especial e pedi a ela uma história de um paciente que tenha marcado sua memória. Ela disse: "Não vou contar não, vou lhe apresentar uma linda história, ao vivo".

Entramos em um quarto no final do corredor. Pouca luz e uma mulher de meia idade, sentada em um banquinho no chão, entre duas camas. A moça olhou para mim e em seguida para a Dra. Patrícia e se pôs a chorar muito: "Doutora, achei que a sra. tinha me abandonado! Liguei pro seu celular... A senhora sempre responde, mas desta vez não respondeu..." Dra. Patrícia respondeu: "Dona Antonia, voltei ontem de viagem... Meu celular estava desligado... Agora como faço? Trouxe este rapaz dizendo que eu era sua médica, me gabando toda que sou boa medica, e você diz que te abandonei..."

Neste momento tive a coragem ou a covardia de fazer um primeiro retrato desta incrível mulher. Quando ela percebeu, disse a mim: "Assim não, eu tô feia!". Na seqüência respondi: "Não, a senhora está linda".

Mas a foto já tinha sido feita, respeitei seu pedido e acalmei meu dedo.

No dia seguinte ela me contou sua história. Seu filho António, então com nove anos, brincava em casa, no Seringal Canadá, quando uma bola bateu em sua cabeça. Durante semanas, meses, o menino passou mal e o medico dizia que era uma virose. "8 meses! Eu não agüentava mais!Resolvi ir até Feijó!", conta Antonia. Mas Feijó, cidade mais próxima, estava longe. No verão, quando o rio está quase seco, quatro dias de barco são necessários no percurso. Lá, os médicos continuavam a dizer que era virose, mas ela já não acreditava. Tentou com o TFD uma passagem para Rio Branco. "Vai demorar de três a seis meses", foi a resposta que ouviu. Mas como ela viveria em Feijó até lá? António só piorava e o instinto da mãe dizia que ele não tinha este tempo. Antonia rodou a cidade e finalmente conseguiu a ajuda do Sr. Joaquim, empresário da cidade, que comprou as duas passagens. Em Rio Branco, António foi rapidamente diagnosticado com um grande tumor no cérebro e foi enviado para Goiânia para se tratar.

Antonia ficou um ano sem conseguir retornar nem dar notícias suas e do menino para o resto da família no Seringal. Mais dois anos se passaram para Antónia conseguir mudar o resto da família, abandonando suas terras no Seringal e tentando vida nova na capital. Esta história não acaba aqui, eu vivenciaria depois todas dificuldades de seu longo percurso, mas isto fica pra mais tarde...

André Jr. - Hospital Araújo Jorge

As oficinas de fotografia que oferecemos no projeto sempre me trazem surpresas maravilhosas. Em Goiânia conheci um moleque esperto demais, internado devido à leucemia. Se não bastassem as frases maravilhosas do menino, que faziam todos rirem, uma enorme coincidência nos uniu imediatamente: tínhamos exatamente o mesmo nome, ele também se chamava André Jr.

Vivenciei todo o caminho que André Jr. percorria com sua mãe naquela enorme cidade. Da casa de apoio ao hospital, era preciso acordar com o dia ainda escuro, pedir ajuda para tomar um ônibus, enfrentar enormes filas e depois mais filas para conseguir exames e consultas.

A burocracia impõe um longo percurso e não respeita o cansaço que a leucemia causa em Andrézinho. Mas ele também não respeita a leucemia e impõe a ela uma energia assustadora de menino. Conversa o tempo todo e percorre com a mãe as dezenas de corredores do hospital.

Presunção minha achar que sabia qual era o tempo deste maravilho menino que veio do interior do Pará, a quem conheci e me apeguei. Não li os sinais, eu me comprometi a acompanhá-lo até sua partida, mas não percebi o que deveria perceber. Ainda guardo em meu celular a sequência de 4 ligações que André Jr. fez um dia antes de partir, não retornei seu chamado, achei que tinha "mais" tempo.

Agora, só me resta ir até o Pará, a sua cidade natal, Pau Darco, para ver Sônia, sua mãe, e de alguma forma que ainda não descobri, me fazer presente. Vou levar fotografias de André, tenho certeza que ela vai gostar.

Multados

Atordoados, deixamos Goiânia numa madrugada. Com novas histórias no coração e no notebook, partimos com a certeza de que estávamos na pista certa. Mas, na pista, também cometemos uma gafe. Na mesma madrugada em direção ao aeroporto, vimos diversos flashes que não partiram de minha câmera, após o terceiro percebemos que eram multas, que acumulamos em diversas esquinas.

É pedir demais ao médico... a pressão é enorme

É muito triste ver sofridos pacientes em busca de uma cura em filas intermináveis, muitas vezes com um fim sem sucesso. De outro lado, é muito triste ver equipes de saúde tendo que dizer "nãos" ou que encaminhar pessoas doentes a um destino incerto. O médico quer ajudar, mas o sistema todo impõe a ele situações sem saída.

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